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Eventos adversos na prestação de cuidados hospitalares em Portugal no ano de 2008*

Publicado na Rev Port Saúde Pública.2011; 29 :116-22 - vol.29 núm 02

Resumo

Introdução: A criação pela Organização Mundial de Saúde da World Alliance for Patient Safety em 2004, é resultado da preocupação crescente face ao domínio da segurança do doente, sendo a ocorrência de erros reconhecida como um grande problema de saúde pública e uma ameaça à qualidade dos cuidados prestados. Objectivo, material e métodos: Tendo por base os códigos da Classificação Internacional de Doenças, 9.ª Revisão, Modificação Clínica (subclasses 996-999, E870-E876 e E878-879), esta investigação procurou conhecer a dimensão dos eventos adversos, decorrentes da prestação de cuidados de saúde nos hospitais públicos de Portugal Continental, relatados no sistema de classificação de doentes em Grupos de Diagnóstico Homogéneo, no ano de 2008. Resultados e discussão: Os resultados revelaram a ocorrência de eventos adversos em 2,5% dos episódios de internamento hospitalar, surgindo na sua maioria como diagnósticos secundários de internamento. A frequência de eventos adversos foi ligeiramente superior nos indivíduos do sexo masculino (2,6%) quando comparada com o sexo feminino (2,4%). A idade dos indivíduos com eventos adversos é em média cinco anos superior à dos restantes indivíduos. O tempo de internamento nos casos de eventos adversos foi em média 4,14 vezes superior quando comparado com o tempo médio de internamento dos restantes episódios. Foi possível também estimar que os custos associados a eventos adversos correspondam a cerca de 4.436€ por episódio de internamento, tendo como referência o custo unitário total por dia de hospitalização no Serviço Nacional de Saúde. A frequência de destino após alta para outra instituição com internamento foi 2,5 vezes superior nos casos de eventos adversos, enquanto o número de falecimentos foi 2,44 vezes superior, quando comparados com os restantes episódios de internamento. Verificou-se ainda que o destino após alta para o domicílio foi menos frequente nos episódios com eventos adversos. As diferenças de frequência de eventos adversos por região foram ligeiras, sendo superior na região centro (3,0%) e inferior na região do Alentejo (1,7%). Conclusão: Os dados sugerem que a ocorrência de eventos adversos possa estar associada a períodos de internamento mais prolongados, maiores custos e maior mortalidade. A frequência de eventos adversos foi maior em indivíduos mais velhos e a diferença entre sexo ou região hospitalar não se mostrou substancial. Neste sentido, é urgente conhecer o real impacto dos eventos adversos, nomeadamente em indicadores como morbilidade e mortalidade dos portugueses.
Palavras-chave: Eventos adversos. Grupos de Diagnóstico Homogéneo. Cuidados hospitalares. Qualidade. Segurança. Portugal

Introdução

Introdução A qualidade tem sido reconhecida como um factor chave no acesso a serviços de saúde efectivos e eficientes. A Organização Mundial de Saúde (OMS) afirma que um serviço de saúde de qualidade é aquele que organiza os recursos eficazmente de modo a ir ao encontro das necessidades de saúde dos que mais precisam de cuidados preventivos e curativos, de forma segura e sem desperdício1. Ao mesmo tempo que os serviços de saúde se tornam cada vez mais complexos e eficazes, novos desafios são também enfrentados pelos sistemas de saúde em assegurar a qualidade e segurança dos cuidados2. Sendo da responsabilidade de todos os stakeholders3, a segurança dos cuidados de saúde representa um importante problema de saúde pública4, podendo ainda implicar um grande peso económico4. O desconforto físico e psicológico sentido pelos doentes lesados durante a prestação de cuidados de saúde, a perda de autoconfiança, desmotivação e frustração dos profissionais, ou a diminuição de produtividade e custos pessoais em cuidados de saúde que atingem desta forma a sociedade, demonstram por si só a magnitude da importância desta problemática5. Diversos estudos internacionais têm sido realizados na tentativa de avaliar a dimensão real dos eventos adversos (EA), e datam dos anos 90 os primeiros dados que mostram o impacto social e económico destes eventos6. Evidência internacional aponta para a ocorrência de EA entre 3% a 17% das hospitalizações6-8, e segundo dados de Espanha8, Reino Unido9, Austrália10 e Brasil6, o período de internamento devido a EA pode ser em média quatro...

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Mansoa, Anaa; Vieira, Carlotab; Ferrinho, Pauloc; Nogueira, Paulod; Varandas, Luíse

aServiço de Cirurgia Cardiotorácica, Hospital de Santa Marta, Centro Hospitalar de Lisboa Central, EPE; Escola Superior de Enfermagem de Lisboa, Lisboa, Portugal

bServiço de Medicina Física e Reabilitação, Hospital do Divino Espírito Santo, EPE, Ponta Delgada, Açores; Alto Comissariado da Saúde, Lisboa, Portugal

cInstituto de Higiene e Medicina Tropical, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, Portugal

dInstituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge; Faculdade de Medicina, Universidade de Lisboa, Lisboa, Portugal

eHospital Dona Estefânia, Centro Hospitalar de Lisboa Central, EPE; Instituto de Higiene e Medicina Tropical, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, Portugal