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Comparação dos utentes do antigo Hospital do Desterro com os utentes do Hospital de S. José no acesso à consulta de Medicina Interna - Parte I : objectivos, população, métodos e resultados sobre potencial de acesso

Publicado na Rev Port Saúde Pública.2011; 29 :188-99 - vol.29 núm 02

Resumo

Cenário: Na sequência do encerramento do Hospital do Desterro (HD), é focada a atenção na integração do seu serviço de Consulta Externa de Medicina Interna (MI) no serviço de Consulta Externa de MI do Hospital de São José. Objectivos: O objectivo geral deste estudo publicado em duas partes é, nesta primeira parte, comparar o potencial de acesso à consulta externa de MI do HSJ dos utilizadores da consulta externa de MI do HD (nos três meses que antecederam a transferência do serviço) com o dos sujeitos que já eram utilizadores da consulta externa de MI do HSJ, antes da integração de serviços. População e métodos: Trata-se de um estudo epidemiológico, transversal e analítico, optando-se pelo método de amostragem aleatória proporcionalmente estratificada dos dois grupos em estudo, de acordo com o género e idade da população previamente analisados e de dimensão igual a 256 elementos para cada um dos grupos. A colheita de dados foi realizada através da aplicação de um questionário por via telefónica, precedida por o envio de uma carta registada com aviso de recepção. Realizada a análise dos dados comparando os dois grupos através dos testes de homogeneidade e independência do qui-quadrado e ANOVA one-way. Principais resultados: Existem diferenças estatisticamente significativas no potencial de acesso entre o grupo I (HD) e o grupo II (HSJ) nomeadamente no que diz respeito: à idade, sendo o grupo I (HD) mais envelhecido que o grupo II (HSJ); ao estado civil, sendo o grupo I (HD) marcado por conter maior proporção de viúvos que o grupo II (HSJ); à situação profissional, com maior proporção de pessoas activas no grupo II (HSJ); ao número de crianças residentes na mesma casa do respondente, superior no grupo I (HD); à escolaridade, detendo o grupo II (HSJ) níveis académicos superiores aos do grupo I (HD); às expectativas antes da última consulta, mais baixas no grupo I (HD); à percepção sobre acessibilidade física ao HSJ, percebida como mais difícil para o grupo I (HD) do que para grupo II (HSJ) e à distância e tempo de viagem do domicílio ao HSJ, menores para o grupo I (HD). Conclusão: As diferenças de potencial de acesso poderão vir a repercutir-se em diferenças de acesso realizado à consulta externa de MI do HSJ como se estudará na segunda parte deste artigo.
Palavras-chave: Acesso a serviços de saúde. Potencial de acesso. Encerramento do Hospital do Desterro

Introdução

Introdução O presente estudo surge num contexto político nacional marcado pela implementação de políticas de reestruturação dos serviços de saúde e foca a transferência de serviços do Hospital do Desterro que integrava o Centro Hospitalar de Lisboa da Zona Central (CHLC) desde Janeiro de 2004, pelas restantes unidades que compõem o CHLC, nomeadamente, o Hospital de S. José, o Hospital de Stº. António dos Capuchos, o Hospital de Santa Marta e o Hospital de D. Estefânia. Os utentes que eram servidos pelo Hospital do Desterro (HD) assistiram a alterações na sua fonte habitual de cuidados, surgindo-lhes como alternativa a utilização de outros hospitais com novas normas administrativas, onde se concentram maiores aglomerados de pessoas e onde o ambiente é menos familiar. Note-se que embora geograficamente estas unidades de saúde se situem relativamente próximas do Hospital do Desterro (o Hospital de São José, por exemplo, fica a pouco mais de cinco minutos a pé), os utentes que mudam de hospital não deixam de ser levados a descobrir um novo trajecto, com novas barreiras arquitectónicas, eventualmente a ter de utilizar um diferente meio de transporte (o que poderá significar maiores custos se for necessário um táxi, por exemplo), ou a depender da companhia de outrem na deslocação às consultas. Estas dificuldades poderão ser tão potenciadas quanto maior for o envelhecimento da população enquanto factor natural de vulnerabilidade1. Tendo em conta este cenário, marcado pela contestação da população em que a resistência à mudança da habitual fonte de cuidados...

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aServiço de Cirurgia Plástica Maxilo-Facial/ORL, Hospital de Egas Moniz, Lisboa, Portugal

bCentro de Malária e Doenças Tropicais, Instituto de Higiene e Medicina Tropical, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, Portugal

cDirecção-Geral da Saúde, Lisboa, Portugal

dInstituto de Higiene e Medicina Tropical, Universidade Nova de Lisboa; Coordenador do Plano Nacional de Saúde (PNS 2011-2016)