Editorial
A literacia em saúde, as políticas e a participação do cidadão
Health literacy, policies and citizen participation
Isabel Loureiro
Departamento de Estratégias em Saúde, Escola Nacional de Saúde Pública, Universidade NOVA de Lisboa, Lisboa, Portugal
Recebido 07 Maio 2015, Aceitaram 08 Maio 2015

A literacia em saúde traduz a capacidade de usar as competências de aceder, compreender e avaliar a informação em saúde, aplicando‐as no dia‐a‐dia para a tomada de decisão em diferentes contextos, tendo em conta as escolhas possíveis. Inclui, também, a capacidade de participar na defesa e na governança para a saúde.

Sendo um direito dos cidadãos, a literacia em saúde tem, também, um forte impacte económico. É um importante determinante da saúde e da qualidade de vida e reflete as desigualdades sociais. Incorpora fatores psicológicos (como a motivação e a perceção de autoeficácia), sociais e ambientais que influenciam as escolhas e os comportamentos relacionados com a saúde. É um dos resultados de ações de promoção da saúde que abrangem políticas de redução das desigualdades e de criação de ambientes favorecedores de escolhas saudáveis, de educação para a saúde, de mobilização social e de estratégias de empowerment.

O investimento em literacia em saúde requer abordagens compreensivas (holísticas), incluindo a utilização de uma linguagem clara que torne acessíveis as mensagens a todos que favoreça uma maior capacidade para lidar com a doença, para a utilização dos serviços de saúde de forma adequada e para melhor compreender e controlar as situações da vida. A literacia em saúde não tem em vista apenas o evitar a utilização inadequada dos serviços de saúde ou o aumento do conhecimento e da capacidade de autogestão da saúde e da doença; refere‐se também ao sentimento de competência e liberdade para participar em debates e tomar decisões a diferentes níveis.

Paulo Freire alertou para a importância de se assegurar que as abordagens pedagógicas desenvolvam a capacidade crítica e promovam o empowerment, abrangendo os mais desfavorecidos. Sendo a literacia em saúde, de acordo com o Institute of Medicine, dos EUA, «baseada na interação com os contextos de saúde, o sistema de saúde, o sistema educativo e os fatores sociais e culturais, em casa, no trabalho e na comunidade», torna‐se fundamental criar uma cultura de saúde e bem‐estar, assumindo a corresponsabilidade no desenvolvimento pessoal e comunitário, exigindo um investimento no ambiente cultural e na ação política.

A literacia em saúde requer o envolvimento de todos os setores na co-construção da saúde, melhorando as competências dos cidadãos para lidarem com a sua saúde e com o sistema de saúde, melhorando as condições para um bom desempenho escolar e profissional, melhorando a qualidade de vida e contribuindo para a transformação da sociedade, nomeadamente eliminando as iniquidades. Também aqui, tal como é referido na relatório da Gulbenkian Um futuro para a saúde, recentemente publicado, «todos temos um papel a desempenhar».

Copyright © 2015. The Author

Métricas

  • SCImago Journal Rank (SJR):0,155
  • Source Normalized Impact per Paper (SNIP):0,377

Open Access

Licença Creative Commons
Revista Portuguesa de Saúde Pública está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

+ info