Publicação breve
Adesão ao rastreio e tratamento da tuberculose em doentes infetados com o vírus da imunodeficiência humana
Tuberculosis screening and treatment compliance in human immunodeficiency virus patients
F. Viveirosa,, , M. Motab, P. Brincac, A. Carvalhoa,d, R. Duartea,d,e
a Serviço de Pneumologia, Centro Hospitalar de Gaia/Espinho, Vila Nova de Gaia, Portugal
b Serviço de Medicina Interna, Centro Hospitalar de Gaia/Espinho, Vila Nova de Gaia, Portugal
c Departamento de Economia, Universidade de Estocolmo, Estocolmo, Suécia
d Centro de Diagnóstico Pneumológico de Vila Nova de Gaia – ARS Norte, Vila Nova de Gaia, Portugal
e Departamento de Epidemiologia Clínica, Escola Médica de Medicina Preditiva e Saúde Pública, Faculdade de Medicina, Universidade do Porto, Porto, Portugal
Recebido 24 Novembro 2012, Aceitaram 06 Março 2013
Resumo

Este estudo teve por objetivo avaliar a adesão dos doentes VIH ao rastreio e tratamento da TB, identificando fatores determinantes para a não adesão.

Foram revistos os registos clínicos de todos os doentes infetados pelo VIH, observados pela primeira vez numa Unidade de Doenças Infeciosas Portuguesa entre 2007 e 2010 (152 doentes). O rastreio incluía: inquérito de sintomas, telerradiografia torácica e TST/IGRA. Em 2008, foi estabelecido um protocolo com um Centro Diagnóstico Pneumológico, que permitia aos doentes escolher o local para serem rastreados (descentralização).

O rastreio foi oferecido a todos os doentes, 69 (45,4%) aceitaram. Antes da implementação do protocolo de descentralização, de 78 doentes, 20 (25%) aceitaram ser rastreados. Após a descentralização, de 64, 49 doentes (76,6%) aderiram ao rastreio. A descentralização dos cuidados de saúde mostrou estar associada a uma maior adesão ao rastreio (p<0,001); enquanto ter uma doença definidora de sida (p=0,002) ou ter mais idade (p=0,04) foram associados a uma menor adesão ao rastreio.

O diagnóstico de TB infeção latente foi feito em 14 doentes e de TB ativa em 18; 14 casos de TB ativa foram diagnosticados posteriormente durante o seguimento em consulta hospitalar. Nos doentes com TB ativa estar em terapêutica HAART mostrou associação com a adesão ao tratamento da TB (p=0,03). Nesta população, a melhoria no acesso aos cuidados de saúde foi importante na aceitação do rastreio de tuberculose.

Abstract

This study aims to evaluate compliance of HIV patients to TB screening and treatment, identifying determinants for non-compliance.

We reviewed clinical records of all HIV infected patients first attended in a Portuguese-Infectious-Unit from 2007-2010 (152 patients). Screening included: symptom inquiry, chest x-ray, TST/IGRA. In 2008 a protocol was established with a TB outpatient clinic allowing patients to choose where to perform screening (decentralization).

All patients were offered screening, 69 (45.4%) accepted. Before decentralization, out of 78 patients, 20 (25%) accepted screening. After decentralization, out of 64 patients, 49 (76.6%) accepted screening. Decentralization was associated with higher levels of acceptance (p<0.001), having an AIDS-defining-disease (p=0.002) and being older (p=0.04) was associated with lower screening acceptance. LTBI was diagnosed in 14 and active-TB in 18 cases; 14 cases of active-TB were later diagnosed during hospital appointments. For active-TB, being on HAART was related with treatment adherence (p=0.03).

In this population, improving health care access was important for screening compliance.

Palavras-chave
Rastreio, Tuberculose, Adesão, População de risco, Vírus da imunodeficiência humana
Keywords
Tracing, Tuberculosis, Adherence, Risk population, Human immunodeficiency virus
Introdução

O risco de tuberculose (TB) é 20-37 vezes maior nos indivíduos infetados pelo vírus da imunodeficiência humana (VIH) do que nos não infetados1. Nos doentes VIH com TB infeção latente (TB latente) o risco anual de evolução para TB doença ativa (TB ativa) é de 5-10%1. A identificação e tratamento preventivo dos indivíduos VIH com TB infeção latente é uma prioridade na luta contra a tuberculose2. Este estudo teve por objetivo analisar a adesão ao rastreio da TB em doentes infetados com VIH e identificar fatores determinantes para não adesão ao rastreio e ao tratamento da TB.

Metodologia

Foram revistos os registos clínicos de todos os indivíduos (internados ou em ambulatório) com infeção VIH, observados em primeira consulta numa Unidade de Doenças Infeciosas de um hospital português (responsável por uma população de 330 000 habitantes) entre 2007 e 2010.

Em 2008, foi estabelecido um protocolo com um Centro Diagnóstico Pneumológico (CDP), com o objetivo de melhorar o acesso aos cuidados de saúde (descentralização) - o rastreio de TB poderia ser efetuado na Unidade Hospitalar ou no CDP, de acordo com a preferência do doente. O rastreio incluía: inquérito de sintomas, telerradiografia torácica (Rx tórax), teste cutâneo de sensibilidade à tuberculina (TST) e realização de «interferon-gamma-release-assay» (IGRA). Os exames micobacteriológicos direto e cultural da expetoração foram realizados quando a suspeita de TB ativa foi levantada.

Sempre que foi diagnosticado um caso de TB ativa, o tratamento gratuito combinado foi oferecido e, desde 2008, os doentes podiam escolher onde queriam tomar a medicação (toma observada diretamente).

A decisão de iniciar terapia preventiva incluía: TST (≥ 5mm) e/ou IGRA positivo, após exclusão de TB ativa. Aos candidatos a iniciar tratamento preventivo, foi oferecido tratamento diário com isoniazida durante 9 meses. A adesão ao tratamento foi assumida para doentes que efetuaram ≥ 80% da dose prescrita. Em relação ao tratamento preventivo foi assumida a adesão dos doentes que vinham semanalmente recolher a medicação e mensalmente para reavaliação em consulta.

Análise estatística

Foram estudados 2 grupos – aqueles que aceitaram e aqueles não aceitaram o rastreio e, posteriormente, os que aceitaram ou não aceitaram o tratamento. Foi feita uma análise univariada e multivariada por regressão logística. Os «Odds-ratios» e intervalos de confiança a 95% associados foram calculados. Foi assumida significância estatística para valores de p0,05.

Resultados

Durante o período estudado foram observados em 1.ª consulta na unidade 152 doentes, 114 (75%) homens, com idade média de 38,5 anos. A contagem média de CD4 foi de 279 céls/ul; 60 (39,4%) eram utilizadores de drogas injetáveis; 46 (30,2%) tinham comportamento de risco heterossexual e 21 (13,8%) homossexual. Em 25 doentes a causa de infeção pelo VIH foi: desconhecida (20), transfusão sanguínea (4) e transmissão congénita (1). Quinze doentes tinham história de contacto prévio com TB e 9 tinham história passada de TB; 64 tinham o vírus da hepatite C (VHC) (42,1%), 12 (7,8%) estavam coinfetados pelo vírus da hepatite B (HBV) e 34 (22,3%) tinham história de doença definidora de sida (tabela 1). Setenta e quatro doentes tinham já infeção conhecida pelo VIH na primeira consulta hospitalar.

Tabela 1.

Descrição e análise da população VIH

Características da população  Doentes rastreadosN.° (%)  Doentes não rastreadosN.° (%)  Adesão ao rastreio (OR: CI 95%)Adesão ao Tx da TB ativa (OR: CI 95%)
      UV  MV  UV  MV 
Sexo
Homens  55 (80)  59 (71)         
Mulheres  14 (20)  24 (29)  0,62: 0,29-1,33  0,09: 0,08-9,98 
Idade (anos)
Média  35,68  40,9  0,97: 0,94-0,99a  0,96: 0,92-0,99a  0,99: 0,91-1,10 
CD4 (céls/ul)
Média  334,5  220  1.002: 1,00-1.002a  1,00: 0,99-1.003  0,99: 0,99-1,00 
Infeção VIH conhecida (anos)
Média  21,3  19,5  1,09: 1,00-1,20a  0,94: 0,82-1,08  0,88: 0,66-1-18 
Doença definidora de sida  6 (9)  28 (33.7)  0,22:0,08-0,57a  0,13: 0,03-0,48a  1,06: 0,16-6,94 
VHC  38 (55)  26 (31,3)  2,68: 1,38-5,21a  3,65: 0,89-14,9  1,60: 0,27-9,53 
VHB  5 (7,2)  7 (8,4)  0,84: 0,25-2,80 
Contacto prévio TB  10 (14,5)  5 (6)  2,64: 0,86-8,15  0,47: 0,06-3,37 
TB passada  5 (7,2)  4 (4,8)  1,54: 0,39-5,99    0,42: 0,03-5,53   
Transmissão VIH
Homossexual  8 (11,6)  13 (15,7)         
Heterossexual  14 (20,2)  32 (38,8)         
Transfusão  4 (5)     
Toxicodependência  35 (50,7)  25 (30)  2,38: 1,23-4,65a  0,82: 0,19-3,43     
Congénita  1 (1,4)         
Indeterminada  5 (7,2)  15 (18)         
Testes de rastreio
TST  60 (87)           
IGRA ELISPOT  15 (21,7) 
IGRA QT  31 (45)           
Anormalidades Rx tórax  31 (45)  34 (40,9)  1,18: 0,62-2,24 
Sintomas respiratórios  27 (39)  33 (39,8)  UV  MV  UV  MV 
      0,97: 0,51-1,87  2,25: 0,37-13,66 
Outros sintomas  29 (42)  32 (38,5)  1,16: 0,60-2,22  2,75: 0,37-20,4 
Descentralização do rastreio (antes vs. depois)  69 (45) (20 vs. 49)  83 (55) (67 vs. 16)  9,57: 4,53-20,2a  16,2: 5,25-54,7a  0,32: 0,03-3,15 
Diagnóstico TB latente  14 (20) 
Tx TB latente  10b (78,5) 
Toxicidade Tx  7 (50) 
Adesão Tx   
Bom  10b (85,7)           
Intermédio/mau  2 (14,3)           
Diagnóstico TB ativa  18 (26)  14 (16,9)         
Disseminada  5 (5,9)  4 (4,8) 
Pleural  2 (2,4)         
Pulmonar  13 (13,8)  8 (9,6)         
Tx TB ativa  18 (21,1)  14c (16,9) 
Toxicidade Tx  6 (33,3)  8 (57,1) 
Adesão Tx             
Bom  15 (83,3)  11 (78,6) 
Intermédio/mau  3 (16,6)  3 (21,4)         
HAART  30 (43,5)  61 (73,5)  0,28: 0,14-0,55a  0,71: 0,27-1,88  11,3: 1,13-112,5a  11,3: 1,13-112,5a 

%: percentagem; HAART: Highly-Active-Antiretroviral-Therapy; IGRA: «interferon-gamma-release-assay»; N.°: número; MV: análise multivariada; QT: quantiferon-TB; SIDA: síndrome de imunodefociência adquirida; TB: tuberculose; TB ativa: TB doença ativa; TB latente: TB infeção latente; TST: teste de sensibilidade cutânea à tuberculina; UV: análise univariada; VHB: vírus hepatite B; VHC: vírus hepatite C; VIH: vírus da imunodeficiência humana.

a

Resultados com valores p significativos a 5%.

b

Dois doentes foram excluídos por necessidade de suspensão do tratamento no contexto de hepatotoxicidade grave.

c

Sete destes doentes foram rastreados antes e um tinha diagnóstico de TB latente no primeiro rastreio.

Análise do rastreio

No período em estudo, 69 (45,4%) doentes com infeção VIH fizeram rastreio de TB. Antes da descentralização, 78 doentes VIH foram observados e 20 (25%) aceitaram o rastreio. Após a descentralização, 49 de 64 doentes VIH (76,6%) aderiram ao rastreio. A descentralização dos cuidados de saúde (p<0,001), um maior período de infeção conhecida pelo VIH (p=0,04), o uso de drogas (p=0,008), a infeção VHC (p=0,003) e uma contagem mais alta de células CD4 (p=0,012) mostraram relação com a adesão ao rastreio. Ter história de doença definidora de sida (p=0,001), estar em terapêutica Highly-Active-Antiretroviral-Therapy (HAART) (p<0,001) e o aumento da idade (p=0,01) mostraram estar negativamente associados com a adesão ao rastreio. Em análise multivariada apenas a descentralização mostrou associação com a adesão (p<0,001), enquanto ter uma doença definidora de sida (p=0,002) e o aumento da idade (p=0,04) foram associados à não adesão (tabela 1).

O diagnóstico de TB latente foi efetuado em 14 doentes e a TB ativa diagnosticada em 32; o rastreio permitiu diagnosticar 18 casos de TB ativa (26%); 14 casos de TB ativa foram diagnosticados posteriormente durante o seguimento em consulta hospitalar – 7 tinham sido rastreados e um com diagnóstico prévio de TB latente (abandonou o tratamento preventivo).

Análise do tratamento

O tratamento da TB latente e da TB ativa foi oferecido a todos os casos identificados – 10 doentes com TB latente e todos aqueles com TB ativa completaram o tratamento. Em 2 casos o tratamento preventivo não foi terminado por hepatotoxicidade. Trinta e seis doentes (83,7%) tiveram uma boa adesão ao tratamento, representando 10 dos 12 casos de TB latente e 26 dos 32 casos de TB ativa (tabela 1).

Analisando a adesão ao tratamento por regressão logística multivariada, não foram encontrados fatores associados nos doentes com TB latente. Nos doentes com TB ativa estar em terapêutica HAART mostrou relacionar-se com uma boa adesão ao tratamento (p=0,03) (tabela 1).

Discussão

Na nossa população, a melhoria no acesso aos cuidados de saúde foi um fator importante na adesão ao rastreio. As vantagens de fazer o rastreio no CDP foram – testes de rastreio e consulta sem necessidade de marcação prévia e o facto de ser de muito fácil acesso (autocarro, metro e comboio nas imediações). Tal como no hospital, todos os exames e consultas eram gratuitos.

O CDP tinha rigorosas medidas de controlo da tuberculose, os doentes com TB ativa eram hospitalizados ou era-lhes administrada a medicação no domicílio sob observação de uma enfermeira, até negativação micobacteriológica da expetoração. Da mesma forma, sempre que eram diagnosticados casos de TB latente ou ativa o tratamento combinado era oferecido, onde quer que o doente escolhesse fazê-lo.

Até recentemente, a Direção-Geral da Saúde suportava os custos dos transportes para doentes com tuberculose ao CDP para a toma de medicação e avaliações clínicas. Este pagamento foi suspenso. O acesso aos cuidados de saúde vai tornar-se mais difícil podendo a descentralização ajudar a lidar com este problema. Outros estudos apontaram para a importância da colaboração entre os vários serviços e uma abordagem centrada no doente3.

A descentralização dos cuidados de saúde tem sido identificada como um potencial na deteção de casos e na manutenção dos cuidados em doentes com VIH4.

No nosso estudo estar em terapêutica HAART mostrou associar-se a uma melhor adesão ao tratamento da TB ativa. Quando os doentes com TB estavam em terapêutica HARRT, o tratamento combinado foi sempre fornecido.

Estar em terapêutica HAART foi também relacionado à não adesão ao rastreio na nossa população. Os doentes em terapêutica HAART podem ter uma «falsa» sensação de segurança relacionada com o tratamento e com o aumento da contagem de CD4, o que poderia explicar a sua fraca adesão ao rastreio na ausência de sintomas. As associações encontradas nos doentes em HAART confirmam indiretamente o caráter multifatorial e complexo destas temáticas. Embora uma fraqueza do nosso estudo resida no facto de ser uma pequena amostra de doentes, em que é analisada conjuntamente a adesão ao rastreio e tratamento da TB, ele sugere que a melhoria no acesso aos cuidados de saúde foi determinante na aceitação do rastreio e reforça a necessidade de continuar a pesquisar e de criar estudos prospetivos randomizados para determinar a melhor conduta face a esta população de risco. O conhecimento dos fatores associados com a adesão ao rastreio e ao tratamento é importante, tendo em vista uma melhoria nas estratégias para aumentar a cura e prevenir a disseminação da TB.

Responsabilidades éticasProteção de pessoas e animais

Os autores declaram que para esta investigação não se realizaram experiências em seres humanos e/ou animais.

Confidencialidade dos dados

Os autores declaram ter seguido os protocolos de seu centro de trabalho acerca da publicação dos dados de pacientes e que todos os pacientes incluídos no estudo receberam informações suficientes e deram o seu consentimento informado por escrito para participar nesse estudo.

Direito à privacidade e consentimento escrito

Os autores declaram que não aparecem dados de pacientes neste artigo.

Bibliografia
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