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Síndrome da Apneia-Hipopneia do Sono e Síndrome Coronária Aguda – Uma associação a não esquecer

Publicado na Rev Port Pneumol. 2012;18:22-8. - vol.18 núm 01

Resumo

Objectivo

Avaliar a prevalência da Síndrome de Apneia-Hipopneia do Sono (SAHS) em doentes internados na Unidade de Cuidados Intensivos Coronários (UCIC); determinar factores clínicos preditivos de SAHS; comparar os resultados obtidos com o estudo de sono simplificado (ESS) com os da polissonografia (PSG).

Métodos

Estudo prospectivo de doentes internados na UCIC com Síndrome Coronária Aguda (SCA), confirmado por coronariografia. Foram avaliados dados demográficos e antropométricos, factores de risco cardiovascular e valores da escala de sonolência de Epworth. O ESS foi realizado com ApneaLinkTM durante o internamento ou após a alta. Os doentes com índice de apneia-hipopneia (IAH) ≥ 10/h foram convidados a realizar PSG.

Resultados

Durante 4 meses foram seleccionados consecutivamente 91 doentes com SCA. Cinquenta e oito doentes completaram o estudo, sendo 43 (74,1%) do sexo masculino, média etária de 61,7±12,2 anos e índice de massa corporal médio de 27,4±3,5kg/m2. A mediana de tempo para realização do ESS foi de 17,5 dias. O estudo foi compatível com SAHS em 25 casos (43,1%). Aos doentes com IAH ≥ 10/h no ESS foi proposta a realização de PSG e ESS em simultâneo. A mediana do tempo entre SCA e a PSG foi de 30 dias. A PSG confirmou a positividade de todos os casos detectados pelo ESS.

Conclusão

No nosso estudo detectámos uma elevada prevalência de SAHS em doentes com SCA internados na UCIC (43,1%). Os resultados suportam a necessidade de um método de rastreio da SAHS em doentes internados com SCA. O ESS pode ter um papel importante no rastreio da SAHS nesta população.

Palavras-chave: Síndrome de apneia do sono. Síndrome coronária aguda. Prevalência. Rastreio.

Introdução

Introdução A Síndrome de Apneia-Hipopneia do Sono (SAHS) é um importante problema de saúde pública não só pela sua associação a hipersonolência, acidentes de viação, morbilidade cardiovascular, alterações cognitivas, ansiedade, depressão e alterações metabólicas, como também pela sua elevada prevalência1, 2. Segundo os clássicos estudos de Young, 2-4% da população adulta tem SAHS3, embora os últimos estudos apontem que entre 3,7% e 26% da população tem um índice de apneia-hipopneia (IAH) superior a 5 eventos por hora1. Se considerarmos um IAH > 5/h e a presença de hipersonolência, a prevalência estimada para SAHS é de 1,2-7,5%1. A cardiopatia isquémica, nomeadamente a Síndrome Coronária Aguda (SCA) representa, também, um grave problema devido à sua elevada prevalência, complicações associadas e mortalidade. Vários estudos têm demonstrado uma associação independente entre SAHS e SCA, sugerindo que a SAHS deve ser tida em conta como um factor de risco a considerar em doentes com SCA4, 5, 6. As alterações observadas na SAHS, nomeadamente, a hipoxémia intermitente, a acidose e a vasoconstrição simpática, podem originar stress hemodinâmico, que tem particular importância em doentes com doença coronária, podendo originar isquémia do miocárdio ou angina nocturna6, 7, 8, 9. A maioria dos doentes com SAHS permanecem sem diagnóstico e sem tratamento10, 11, 12, podendo isto ser particularmente importante em doentes com patologia cardiovascular, que poderiam beneficiar do diagnóstico para minimizar o risco de novos eventos cardiovasculares13. O objectivo deste estudo foi analisar a prevalência da SAHS em doentes com SCA e, adicionalmente, determinar a existência de factores clínicos preditivos de SAHS e comparar...

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Areias, V.a; Romero, J.a; Cunha, K.a; Faria, R.b; Mimoso, J.b; Gomes, V.b; Brito, U.a

aServiço de Pneumologia, Hospital de Faro, EPE, Faro, Portugal

bServiço de Cardiologia, Hospital de Faro, EPE, Faro, Portugal