Prevalência de insónia de novo em doentes com sÃndrome de apneia obstrutiva do sono tratados com suporte ventilatório nocturno
Publicado na Rev Port Pneumol. 2012;18:15-21. - vol.18 núm 01
Resumo
Introdução
A insónia de novo (IN) associada ao uso do suporte ventilatório nocturno (SVN) tem sido uma realidade constatada na prática clínica, contudo é de salientar a escassez de dados referentes à sua prevalência. O nosso objectivo consistiu em determinar a prevalência de IN e seus factores de risco em doentes com síndrome de apneia obstrutiva do sono (SAOS) sob SVN.
Material e métodos
Estudo descritivo transversal que incluiu 80 doentes com SAOS sob SVN. Efectuada comparação entre dois grupos, com e sem IN, relativamente a características demográficas, relacionadas com a doença, e personalidade. Foram excluídos os doentes sob medicação ansiolítica e/ou antidepressiva, com perda ponderal superior ou igual a 10%, e com sintomas da síndrome das pernas inquietas.
Resultados
A mediana de idades dos doentes incluídos foi de 60,0 (intervalo interquartil (IIQ) 10,0) anos; 82,5% eram do sexo masculino. Os valores iniciais medianos da escala de sonolência de Epworth (ESE) e do índice de apneia-hipopneia (IAH) foram de 12,5 (IIQ 9,0) e de 44,1 (IIQ 22,4)/h, respectivamente. A maioria dos doentes (91,3%) estava sob pressão positiva nas vias aéreas em modo automático (auto-adjusting positive airway pressure (APAP)). A insónia prévia ao uso de SVN estava presente em 30% (n=24) dos doentes. A prevalência de IN foi de 21,4% (12/56) e os subtipos de insónia inicial e/ou intermédia foram os mais frequentes (n=11). Foi encontrada uma relação negativa estatisticamente significativa entre a IN e a pressão em 90% do tempo de SVN (P90) (p=0.040).
Conclusões
Os doentes com SAOS sob SVN apresentaram uma prevalência elevada de IN. Os doentes com IN apresentaram níveis inferiores de pressão de SVN comparativamente com os outros.
Palavras-chave: Insónia de novo. SÃndrome de apneia obstrutiva do sono. Suporte ventilatório nocturno. Auto-adjusting positive airway pressure. Prevalência. Factores de risco.
Introdução
Introdução
A insónia e a síndrome de apneia obstrutiva do sono (SAOS) constituem os dois distúrbios do sono mais frequentes, e ambos estão associados a um significativo aumento dos custos de saúde. Apesar de um estudo epidemiológico prévio ter demonstrado uma prevalência de SAOS de 2% a 4% na população adulta de meia idade1, essa foi significativamente superior num estudo mais recente2, o que é justificável pelas diferentes características das populações em estudo, critérios de diagnóstico, técnicas e metodologias epidemiológicas aplicadas. De forma semelhante, as estimativas sobre a prevalência de insónia dependem dos critérios aplicados na sua definição e, mais importante, do tipo de população em estudo3. Sintomas de insónia ocorrem em, aproximadamente, 33% a 50% da população adulta; sintomas de insónia causadores de angústia e prejuízo para o doente (ou seja, perturbação de insónia geral) em 10% a 15%; e perturbações de insónia específica em 5% a 10%3, 4, 5. A insónia, entidade complexa e multifactorial, tem sido descrita como um processo psicológico, com uma importante componente fisiológica, como a activação do sistema nervoso central ou aumento da actividade despertar ou arousal durante o sono5, 6, 7, 8. Alguns autores sugerem que tais despertares podem ser inatos ou determinados geneticamente, constituindo um substrato sobre o qual vários factores externos, como o stress, podem actuar, agravando a insónia9, 10, 11. Apesar da elevada prevalência deste sintoma e das suas significativas consequências psicossociais, a evidência existente sobre as potenciais interacções ou associações entre os dois distúrbios – SAOS e insónia – é...
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aServiço de Pneumologia, Hospital de São João, Porto, Portugal
bCentro de Saúde de Negrelos – ACES de Santo Tirso/Trofa, Porto, Portugal
cFaculdade de Medicina,Universidade do Porto, Porto, Portugal
dDepartamento de Higiene e Epidemiologia, Faculdade de Medicina, Universidade do Porto, Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, Porto, Portugal